quinta-feira, 17 de agosto de 2017

BOCA DE OURO


Foto de João Caldas Filho

        Costumo escrever a matéria de um espetáculo um ou dois dias após a ele ter assistido, mas quando o deslumbramento é muito grande procuro dar um tempo, esperar a poeira baixar e então voltar a ele, com menor perigo de adjetivar demais. Já faz uma semana a que assisti Boca de Ouro e ainda me sinto tocado pela beleza e perfeição da leitura de Gabriel Villela para o texto de Nelson Rodrigues, que, assim como A Falecida, tem sólida estrutura dramatúrgica, seja na determinação dos personagens, no desenvolvimento da trama ou no final surpreendente. Tudo funciona no texto que faz perfeito retrato do subúrbio carioca e a encenação de Villela, sem abandonar a estética do encenador, tem ar e ambiente que condizem com o original de Nelson Rodrigues. Ao contrário de outras montagens do diretor, são poucos os elementos em cena: várias mesas, cadeiras e copos simulando cabaré da Lapa e uma poltrona no meio da cena que terá diferentes funções durante a apresentação. O toque barroco, característico de Villela, fica por conta dos figurinos coloridos e esplendorosos (cenário e figurinos são assinados pelo diretor).
        Nesse cenário, sob a luz inventiva de Wagner Freire e ao som de músicas de diversas épocas do cancioneiro popular brasileiro interpretadas por Mariana Elisabetsky desfilam e agem as personagens criadas por Nelson Rodrigues.
        Lavínia Pannunzio, dona de imenso talento já comprovado em inúmeros trabalhos, merece destaque especial como Guigui, a personagem que conduz a trama contando três versões do assassinato de Leléco (Claudio Fontana, ótimo, lembrando vocal e corporalmente de Luís Mello em Paraíso Zona Norte (1989). Mel Lisboa cresce a cada nova interpretação, sua Celeste tem ao mesmo tempo a sensualidade e a agressividade pedida pelo autor, além da voz de poderoso alcance. Chico Carvalho empresta sua irreverência ao repórter Caveirinha e diverte na pele da granfina Maria Luísa. Leonardo Ventura tem ótima máscara como o velho corcunda Agenor, marido de Guigui, mas parece menos à vontade no concurso de seios do que suas “companheiras” Cacá Toledo e Guilherme Bueno. Malvino Salvador, buscando novos caminhos, se sai bem como o protagonista. Mariana Elisabetsky tem bela voz apesar de indesejável trinado nos momentos mais agudos. Jonatan Harold se incumbe do piano e de algumas figurações. Louvem-se a coesão e o espírito de conjunto do elenco, além da perfeita emissão de voz que torna o todo audível na complicada acústica do Tucarena.
        Na trilha sonora cabem tanto clássicos (Cidade Maravilhosa) como canções contemporâneas (De Frente Pro Crime) e até Bang Bang (My Baby Shot Me Down) todas elas adequando-se e comentando a ação.
        Boca de Ouro é espetáculo que beira a perfeição. Villela conseguiu, de maneira criativa e talentosa, transformar a tragédia carioca de Nelson Rodrigues em impactante melodrama expressionista, sem trair a intenção do autor.
        E não se pode deixar de comentar sobre o inventivo uso dos dedais que exercem várias funções durante a peça.


        BOCA DE OURO está em cartaz no Tucarena às sextas e sábados às 21h e domingos às 18h30.
        ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL!

17/08/2017


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

AS CRIADAS


        ... E o verbo se fez carne nas presenças hipnóticas de Bete Coelho e Magali Biff. Há muito tempo não se presenciava em teatro texto tão bem pronunciado e interpretado como nesta montagem extraordinária da não menos extraordinária peça de Jean Genet.
        A peça joga com a alteridade de maneira absolutamente perfeita. Logo em seu início a criada Claire incorpora a Madame enquanto sua irmã Solange a incorpora: está criado o jogo de espelhos que por meio das artimanhas das irmãs para assassinarem a Madame nos leva até o inesperado final. Genet escreveu o texto em 1947, época de desencanto da Europa do pós guerra, terreno fértil para surgir o teatro do absurdo de Beckett, Ionesco e onde ele também se situa. Genet, porém, pelo seu próprio modo de vida, acrescenta enorme dose de crueldade em seus escritos e As Criadas é exemplo disso.
        A montagem do polonês Radoslaw Rychcik tem simples, mas grande achado cênico que é a colocação de telão no alto do palco onde se pode ver os vários ângulos dos rostos e expressões das atrizes; outro fator que enriquece a montagem é a trilha sonora minimalista dos poloneses Michal Lins e Piotr Lis que comenta a ação e amplia o suspense da trama. A trilha é tocada ao vivo por músicos brasileiros.
        As interpretações das duas criadas são milimetralmente planejadas no gestual, na emissão de voz e na movimentação cênica. Atreladas a duas poltronas na maior parte do tempo, Bete Coelho e Magali Biff deixam os perplexos espectadores sentados na ponta da poltrona aguardando o que vai acontecer. É surpreendente e estimulante acompanhar esse jogo cênico dessas duas grandes atrizes.


        Toda a organização interpretativa das criadas cai por terra com a chegada da Madame numa explosiva interpretação de Denise Assunção. Denise parece não respeitar texto nem marcação sendo um ótimo contraponto para os trabalhos comedidos de Bete e Magali, no entanto a atriz podia ser menos over em sua concepção da personagem e em suas improvisações. Diga-se de passagem, que a atriz abre o espetáculo com exuberante figurino cantando O Morro Não Tem Vez, emblemática canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes que cai como uma luva para a proposta do diretor de colocar uma negra no papel de Madame.
        As Criadas de Jean Genet revisitada por Radoslaw Rychcik vai ficar para a história e as interpretações de Bete Coelho e Magali Biff deverão fazer parte das antologias que reúnem trabalhos excepcionais de nossas atrizes.
        A peça cumpriu temporada no Sesc Santana de 14/07 a 13/08, após ter sua estreia mundial no FIT – Festival Internacional de Teatro de Rio Preto. QUEM VIU, VIU!


14/08/2017

terça-feira, 8 de agosto de 2017

CÉLIA HELENA




        Com seu olhar melancólico, seu corpo esguio, seu belo rosto e sua voz personalíssima Célia Helena iluminou a cena paulistana por quatro décadas desde sua estreia em São Paulo em 1955 (ela havia feito Inimigos Íntimos em 1953 no Rio de Janeiro) com Os Três Maridos de Madame até 1992 em sua última aparição no teatro com Luar em Preto e Branco onde contracenava com Raul Cortez. Não assisti a nenhuma dessas duas montagens, mas tive a oportunidade de admirá-la muitas vezes a partir de 1964 quando a vi como a Tatiana de Pequenos Burgueses no Teatro Oficina. Foram muitas as emoções com suas interpretações viscerais e cheias de talento e de emoção, atingindo o auge, no meu ponto de vista, com a Magra na peça Pano de Boca de Fauzi Arap em 1976. No ano seguinte, a atriz inaugurou o Teatro Célia Helena e sua escola de teatro que passou a ocupar cada vez mais o seu tempo até o triste desaparecimento em 1997, após longa enfermidade.


1963 - Pequenos Burgueses

1976 - Pano de Boca

        A atriz também fez cinema e televisão, mas apesar de efêmero na forma, o teatro é a arte que melhor guarda na memória a sua presença.


        O ano de 2017 marca os 20 anos da morte da atriz e os 40 anos do surgimento do Teatro Escola que leva seu nome e hoje é administrado por sua filha Ligia Cortez. Datas redondas são apenas datas, mas servem para nos fazer lembrar e assim não deixar cair no esquecimento grandes nomes do nosso teatro, assim como seus principais trabalhos e, neste caso, empreendimentos como o Teatro Escola que de cursos profissionalizantes de teatro passou a Escola Superior de Artes com cursos de graduação e pós-graduação em artes cênicas, tendo formado muitos profissionais que hoje estão nos nossos palcos.
        Fica aqui o registro das saudades de Célia Helena (13/03/1936-29/03/1997) e do seu grande talento. 


               Nydia Licia, outra grande atriz de nossos palcos e colaboradora no Teatro Escola, escreveu um belo livro sobre Célia Helena intitulado Uma Atriz Visceral (Imprensa Oficial, 2010).  O volume é repleto de fotos e contém a lista completa de peças, filmes e novelas estrelados pela atriz.

08/08/2017
         


A PALAVRA PROGRESSO NA BOCA DE MINHA MÃE SOAVA TERRIVELMENTE FALSA


        Após sua publicação pela É Realizações Editora, com bastante frequência a obra do dramaturgo romeno Matéi Visniec tem sido posta em cena em nossos palcos. Agora chegou a vez de um de seus melhores trabalhos pelas mãos do encenador Reginaldo Nascimento


        A Palavra Progresso na Boca de Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa é um épico que trata dos desastres e da insanidade das guerras e a existência de fronteiras tendo como base uma família cujos pais procuram o corpo do filho morto na guerra e que foi enterrado em valas comuns em uma floresta. A peça é constituída por cenas envolvendo o pai, a mãe, o filho morto, a filha que se prostitui e seu entorno (o novo vizinho, a velha louca e o pessoal do prostíbulo). São cenas curtas muito bem construídas, muitas delas constituídas de monólogos. Apesar de se ambientar no pós-guerra da desintegração da Iugoslávia a peça tem caráter universal na sua denúncia anti- bélica.
        O diretor soube organizar essas cenas de maneira bastante dinâmica, não deixando pontos mortos entre elas. Os personagens circulam harmonicamente pelo cenário idealizado pelo diretor e por Déris Alves mostrando mais uma vez o talento de Nascimento para coreografar cenas de conjunto. A iluminação da peça dialoga com a proposta com o senão de dois spots ligados no rosto do público que prejudicam a visão e não têm muita (ou nenhuma) função.
        A montagem é prejudicada pela irregularidade do elenco. Enquanto Felipe Oliveira (o filho), Francisco Cruz (o novo vizinho e a travesti), Fernanda Tessitore (a filha) e Geni Sau (a velha louca) têm bons desempenhos; Reinaldo Fonseca (o pai) e Beatriz Alves (a mãe) deixam a desejar, ela pelos problemas de dicção e ele também pela dicção e pelo gestual não condizente com o personagem. Uma pena, pois são os personagens mais importantes da peça, tendo ela o momento mais tocante com o monólogo onde confessa que “... uma mãe feliz é uma mãe que sabe onde estão enterrados seus filhos”. O restante do elenco, em papeis menores, cumpre seu papel.
        Apesar desses senões, A Palavra Progresso na Boca da Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa merece ser vista. Está em cartaz no Teatro Commune às quartas e quintas às 21h até 19/10.

O8/08/2017
       

        

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A MULHER QUE DIGITA


        A Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do CCSP completa sua 3ª edição com a apresentação de A Mulher Que Digita, ora em cartaz.
        Sucesso de público e de critica em suas duas primeiras edições (Mantenha Fora do Alcance do Bebê de Silvia Gomez/2015 e Os Arqueólogos de Vinicius Calderoni/2016 foram merecidamente aplaudidas e premiadas e os quatro outros títulos também tinham ótimo nível), o mesmo não aconteceu em 2017, onde uma direção equivocada prejudicou o bom texto de Boi Ronceiro e ANTIdeus ficou apenas na excelente intenção, aquela de denunciar o fanatismo de religiões monoteístas.
        Eis que a redenção da III Mostra chega com A Mulher Que Digita instigante texto de Carla Kinzo que coloca duas mulheres em cena, confinadas em um apartamento, sendo que lá fora reina a violência e há toque de recolher em determinado horário. Em clima de suspense uma dessas mulheres dita à outra uma terrível história sobre o assassinato de um jovem. Aos poucos a mulher que digita vai se envolvendo com a narrativa e a partir daí ficção, realidade e os papeis de cada personagem vão se entrelaçando em inteligente jogo de metalinguagem aonde o crescente ruído vindo da rua atinge níveis insuportáveis até se calar aos exatos 71 minutos da ação. A inclusão da canção Strange Fruits de e com Billie Holyday encaixa-se como uma luva ao tema tratado na peça.
        Louve-se a reação do público na noite da estreia que soube entender o código teatral imposto pela direção e aplaudiu no momento certo. É entendível, pela característica da encenação, que as atrizes não voltem para os agradecimentos finais, mas a devolução por meio dos aplausos da energia fornecida por elas durante a ação  fica retida na garganta do espectador.
        De acordo com a proposta da Mostra que é revelar bons textos dramatúrgicos, a encenadora Isabel Teixeira deu prioridade para o texto fazendo-o ecoar da melhor maneira nas vozes das atrizes. O cenário concebido pelo grupo e por Michel Castro é sóbrio e eficaz e o ambiente tem iluminação de Aline Santini que se aproveita muito bem das sombras e das penumbras para fortalecer a ação dramática.
        Sabrina Greve usa sua figura esguia para exteriorizar a segurança inicial da mulher que dita e que detém o conhecimento da história. No decorrer da ação ela vai perdendo essa segurança nas interlocuções com a mulher que digita vivida por Andrea Tedesco; esta demonstra um misto de perplexidade e curiosidade com o que vai ouvindo e suas interrupções na digitação têm saudável toque de humor que amenizam a tensão provocada pelo tema tratado. As interpretações confirmam o talento dessas duas jovens atrizes do nosso teatro.
        Segundo Kil Abreu, curador do projeto, a edição de 2018 recebeu mais de 300 inscrições o que consolida o sucesso e a importância desse evento. Longa vida à Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do CCSP.
         A MULHER QUE DIGITA está em cartaz no Centro Cultural São Paulo às sextas e sábados às 21h e aos domingos às 20h até 27/08.


07/08/2017

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

JULHO 2017: O livro, os bons espetáculos e o mais belo dos filmes.


         O mês de julho foi bastante gratificante para mim. O lançamento do meu livro O PALCO PAULISTANO DE GOLPE A GOLPE (1964-2016) levou mais de 150 pessoas à Casa das Rosas na muito fria noite do dia 19 e como espectador, tive o privilégio de assistir a ótimos espetáculos. Alguns deles foram comentados neste blog (O Dragão de Fogo, Patética, Hotel Mariana e Pescadora de Ilusão), mas houve muitos outros e por total falta de tempo não pude escrever sobre eles, faço então uma resenha daqueles que mais me surpreenderam:

- SÚTIL VIOLENTO – Produção da Companhia de Teatro Heliópolis, dirigida por Miguel Rocha. Bastante voltado para a expressão corporal, o espetáculo chega a lembrar dos laboratórios performáticos muito em voga nos anos 1970, dos quais O Terceiro Demônio do Grupo TUCA é o melhor exemplo. Elenco e músicos coesos e em sintonia com a proposta do encenador.

- IMORTAIS – A peça de Newton Moreno tem brilhante monólogo inicial realizado com toques de humor por Denise Weinberg onde sua personagem, uma velha que vai morrer, quer passar seus últimos momentos próxima à cova de seu marido. Infelizmente na continuação a peça não se mantém nesse nível. Direção de Inez Viana.

- A VOZ QUE RESTA – A peça é um intenso exercício de interpretação de Gustavo Machado representando homem carente tanto física como espiritualmente de sua amante Marina. Ele grava uma fita cassete para ela durante toda a ação da peça. Texto bem elaborado por Vadim Nikitin que também dirige o espetáculo. A iluminação de Aline Santini acompanha e ilustra o desespero do homem. A carência física atinge seu auge quando para amenizá-la o homem se masturba na forte e necessária cena final.

- CHORUME – Mais um texto inusitado de Vinicius Calderoni em uma encenação bonita e interessante do próprio autor onde os atores fazem deslocamentos bastante originais em cena contracenando com o cenário móvel de André Cortez e com a iluminação de Wagner Antonio.


- FOME.DOC – O roteiro de Fernando Kinas é uma antologia sobre a fome que inclui notícias de jornais, relatórios, Josué de Castro, Kafka e até O Comedor de Gilete, música de Carlos Lyra, popularizada por Ary Toledo. O extenso material resulta em espetáculo muito longo, apesar das ótimas interpretações da brechtiana Fernanda Azevedo que comenta com distanciamento cada palavra que profere e de Renan Rovida, este, uma excelente surpresa. Espetáculo sério, engajado e muito necessário para os dias que vivemos.

- NU DE BOTAS – Simpaticíssimo e gostoso espetáculo mostrando o universo de uma criança (Antonio Prata) com a descoberta das relações (a separação dos pais), do sexo e da morte. Elenco espontâneo com interpretações naturalistas. Direção de Cristina Moura.


- MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS – Remontagem da adaptação de Regina Galdino da obra de Machado de Assis que fez sucesso há 19 anos com Cássio Scapin. Agora quem veste a roupa de Brás Cubas com muita verve, ironia e graça é Marcos Damigo que tem porte, flexibilidade corporal e vocal. Ótimo trabalho.


- A MORTE DE IVAN ILITCHTour de force de Cácia Goulart vivendo Ivan Ilítch do vigor como juiz à decadência e agonia até a morte. A adaptação jaz jus à magnífica novela de Tolstoi. A peça que cumpriu temporada há alguns anos, foi apresentada apenas por duas vezes na Biblioteca Mario de Andrade e merece um retorno ao cartaz.

- PARA NÃO MORRER – A figura em cena lembra uma velha feiticeira sábia detentora dos segredos da humanidade focando sua atenção em mulheres guerreiras, militantes e resistentes presentes no livro Mulheres de Eduardo Galeano. A personagem tem o braço esquerdo e parte do lábio paralisados. Interpretação vigorosa da atriz curitibana Nena Inoue que tem o corpo nu coberto por vasta cabelereira.


- OS ATINGIDOS – Alguns dirão “Mais uma peça tratando da tragédia de Mariana?”... Mas seriam necessárias mais de uma dezena delas para denunciar essa barbaridade que só podia acontecer em um país onde imperam a impunidade e o descaso pelas vidas humanas. Enquanto Hotel Mariana nos pegava pela emoção, Os Atingidos o faz pela razão. Em ambos os casos fica explícita a denúncia necessária dos fatos ocorridos em 05 de novembro de 2016. O grupo esteve em Mariana e trouxe alguns objetos que têm papel importante na dramaturgia de cena. O texto de José Fernando Peixoto de Azevedo (também diretor) baseado em depoimentos recolhidos no local e nas notícias da mídia é bastante consistente. Elenco afinado e ótima utilização de recursos cinematográficos que dão caráter épico à encenação. O operador de vídeo tem papel tão importante em cena quanto os atores.


- ON LOVE – Espetáculo de Francisco Medeiros que se assiste com um sorriso (às vezes, amargo) nos lábios. São seis monólogos falando de relacionamentos amorosos em suas mais diversas formas. Três deles foram escritos pelo dramaturgo escocês Mick Gordon e os outros três foram criados pelos atores seguindo o mesmo modelo de Gordon. Interpretação espontânea e bem equilibrada dos três atores (Eloisa Elena, Claudio Queiroz e Júlia Moretti), auxiliados pelos adereços criados por Marisa Bentivegna (malas de madeira que contém roupas, plantas e bancos). Há um intermezzo coreografado que prepara a última cena que é verdadeiro balé. Ah, a magia do teatro! Um imenso tapete vermelho limita a ação do gostoso espetáculo onde o público fica no palco, bem juntinho aos atores.

         Com exceção de Sutil Violento (em cartaz na Casa de Teatro Maria José de Carvalho até 27/08), Chorume (em cartaz no Sesc Bom Retiro até 13/08) , Fome.doc (em cartaz no Centro Cultural São Paulo até 20/08) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (em cartaz no Teatro Eva Herz até 29/09), todos os outros trabalhos já saíram de cartaz.

         A resistência da nossa gente de teatro emociona e nos faz ter forças para bradar EVOÉS pela cultura deste país que tanto dela necessita.


         Ainda neste mês assisti se não ao melhor, ao mais belo filme do ano: POESIA SEM FIM, do diretor chileno Alejandro Jodorowski. Raro e belíssimo e muito diferente de tudo que já vi na vida. Lembra Fellini nas reconstituições e no onírico, mas vai mais fundo no surreal . Assisti de boca aberta e me tirou do chão.

01/08/2017



domingo, 16 de julho de 2017

PESCADORA DE ILUSÃO

Carol Badra e Mel Lisboa. Foto de Deborah Schcolnic

        Por conta de levar a netinha Laura tenho tido contato com o teatro infantil que se faz na cidade e como já comentei em outra matéria é surpreendente a maturidade e a qualidade das produções infantis, muitas vezes bem superiores daquelas praticadas pelo teatro adulto.
        Ontem foi a vez de Pescadora de Ilusão, sugestiva adaptação de GpeteanH do livro A Mulher Que Matou os Peixes de Clarice Lispector. Trazer o universo e a lembrança dessa grande escritora para as crianças é extremamente louvável e o adaptador, que também dirige o espetáculo, o fez com muita delicadeza e cuidado. Momentos hilários como a relação da escritora com o cachorro e os patos cantores caipiras são pontuados com momentos sérios e tristes como a morte da macaquinha Lizete. A montagem dosa muito bem esses elementos fazendo as crianças se divertirem muito, mas também tomarem contato com despedidas e mortes.
        As atrizes-palhaças Carol Badra e Mel Lisboa se revezam nos papeis de Branco e Augusto narrando com muita graça e espírito os envolvimentos da pescadora/escritora com os animais: baratas, lagartixas, gatos, cachorros, jacarés, coelhos, patos e a graciosa Lizete desfilam pelo palco e pela plateia para a alegria das crianças e dos adultos presentes.
        A tão decantada efemeridade do teatro torna-se muito palpável em espetáculo com crianças presentes. Elas são em geral desinibidas e participativas, dando palpites e até subindo ao palco fazendo cada apresentação ser absolutamente única. Na sessão a que assisti dois garotos subiram abruptamente ao palco durante a apresentação dos patos. Um incrédulo pai corria atrás do seu garoto que fugia dele lhe dando verdadeiro drible. A plateia acompanhava a inesperada ação torcendo para que o pai não alcançasse o pequeno: Que maldade! Enquanto isso as atrizes contornavam a situação improvisando algumas falas. Do modo como aconteceu essa cena não se repetirá jamais, por isso, viva o teatro, arte única!
        Há muitos momentos deliciosos na peça como o sapateado dos coelhos e o quase balé inicial debaixo da chuva. Tudo pontuado pela direção de arte de Marco Lima, pela música de Pedro Paulo Bogossian e pelo talento das atrizes.
        Nas últimas cenas as crianças são convidadas a julgar se condenam ou absolvem a mulher que matou os peixes, devolvendo ou não seu coração. E a noção de justiça é mais um elemento a ser incorporado ao universo infantil.
        PESCADORA DE ILUSÃO é exemplo de bom teatro infantil e deve ser prestigiado pelos pais em busca de divertimento saudável, educativo e formador de público para os seus rebentos.
        Em cartaz aos sábados e domingos às 16h no Teatro Sérgio Cardoso até 30 de julho.

Carol Badra, Guto Togniazzolo, eu, Mel Lisboa e GpeteanH, ao final do espetáculo.


16/07/2017

terça-feira, 11 de julho de 2017

HOTEL MARIANA



 Triste tempo presente
Em que falar de amor e flor
É esquecer que tanta gente
Tá sofrendo tanta dor

(Augusto Boal e G. Guarnieri em Arena Conta Zumbi, 
a partir do poema Aos Que Vão Nascer de B. Brecht)


        Importa escrever sobre encenação, dramaturgia, interpretação, cenografia e iluminação diante da tragédia ocorrida em Mariana em novembro de 2015? Tragédia esta anunciada e decorrente do descaso de empresas e autoridades (in) competentes cujos únicos objetivos são a ganância e o lucro.
        Citando mais uma vez Boal/Guarnieri/Brecht: “A voz da minha gente se levantou e a minha voz junto com a dela” Como cidadãos (elenco e público), damos nosso grito de indignação com os fatos apresentados na peça, pois sabemos que “nossas vozes não podem muito, mas gritar nós bem gritamos; temos certeza que os donos da Samarca e as autoridades ficariam mais contentes se não ouvissem a nossa voz”.
        Só pelo tema tratado a peça causaria emoção e indignação mesmo que não fosse boa, mas se trata de uma das melhores montagens desta temporada de 2017 e como pessoa de teatro me restrinjo ao fato teatral, deixando o assunto em si para a mídia, sociólogos, antropólogos e historiadores. Fica a ressalva que isso não pode cair no esquecimento (como parece ser o caso da mídia) porque lembrar é resistir e vai aí talvez o maior mérito desta encenação idealizada por Munir Pedrosa.
        Seis dias após o acontecimento Pedrosa viajou para o local da tragédia e recolheu relatos de pessoas de Bento Rodrigues e Paracatu, dois locais afetados pelo tsunami de lama e rejeitos sólidos.


         De posse desse material foi organizando junto ao diretor Herbert Bianchi e ao elenco a dramaturgia do que viria a ser Hotel Mariana. A encenação usa a técnica Verbatim que já havia sido empregada por Zé Henrique de Paula em 2015 no espetáculo Ao Pé do Ouvido, no qual Bianchi participou como ator e dramaturgo. Segundo o programa da peça “Verbatim é um tipo de teatro documentário que reproduz no palco as palavras exatas de depoimentos reais sobre um determinado tema ou evento”. A técnica se encaixa como uma luva na proposta de Hotel Mariana. Munidos de fones de ouvido onde escutam o relato original os atores reproduzem não só as falas, mas a emoção do entrevistado.
        A organização cênica (cenário e disposição dos atores) de Herbert Bianchi é exemplar e muito bela, tendo um grande aliado no desenho de luz criado por Rodrigo Caetano.
        A atuação do elenco é pungente e vai ser muito difícil esquecer a expressão de dor estampada na face de Angela Barros, a canção entoada pelo velhinho representado por Rodrigo Caetano (que só fui reconhecer quando interpretou o prefeito da cidade) e a figura cômica e comovente do “herói” Arnaldo interpretado por Munir Pedrosa. Não disponho da relação ator/personagem do restante do elenco, mas todos sem exceção estão perfeitos em suas interpretações.




        Hotel Mariana é espetáculo impactante que merece retorno ao cartaz (a última apresentação foi em 10/07/2017 na Estação Satyros) por ser belíssimo e mais que isso, NECESSÁRIO E URGENTE!

11/07/2017



sexta-feira, 7 de julho de 2017

PATÉTICA


        No dia 13/10/1975 foi feita no Teatro Paiol uma leitura dramática da peça Concerto nº 1 Para Piano e Orquestra de João Ribeiro Chaves Neto, dirigida por Sérgio Mamberti. No programa o autor comenta sobre suas habilidades na arte de escrever e dá uma relação das peças já escritas e duas que estavam em preparação. Exatos doze dias depois, seu cunhado Wladimir Herzog foi covarde e brutalmente assassinado pelos órgãos repressores da famigerada ditadura militar nas dependências do DOI-Codi. O fato fez o dramaturgo mudar seus planos e escrever em regime de urgência uma peça que denunciasse o ocorrido. Assim surgia Patética que ganhou o Prêmio do Serviço Nacional de Teatro em 1977. Proibido o prêmio, a peça só foi editada em 1978 e só teve a liberação para montagem em 1980, quando foi dirigida por Celso Nunes e provocou fortes comoções em suas apresentações no Auditório Augusta.  Na ocasião, Sábato Magaldi escreveu “Ver Patética importa em emocionar-se e refletir maduramente sobre a História contemporânea do país”.


        “São Nuvens. São nuvens que passam”, comenta o personagem Hans, referindo-se aos tempos maus que a família vinha atravessando com a perseguição aos judeus durante a 2ª guerra mundial. As nuvens negras voltaram a assombrar a família em 1975 com a morte de Wlado.
        Passaram-se 42 anos. Estamos em 2017 e as nuvens insistem em não passar neste Brasil corroído pela corrupção e pelo ódio. Em bom momento a militante Companhia Estável de Teatro optou por uma nova montagem de Patética, porque mudam as moscas, mas...
        A encenação de Nei Gomes é límpida e reforça o lado circense da ação. O início da peça com a apresentação dos artistas do circo é alegre e movimentada. Quando Bolota, o palhaço líder do grupo anuncia a representação de uma peça sobre o assassinato de Glauco Horowitz, diga-se Wladimir Herzog, as nuvens começam a surgir no horizonte mostrando que o que está por vir não é nada engraçado. Acompanha-se a mudança de fisionomia do público à medida que a ação avança.
        Os cinco atores desdobram-se na interpretação dos artistas do circo e das personagens que retratam Wlado, seus pais, sua esposa, o cunhado (que é o próprio dramaturgo) e o torturador. Juliana Liegel faz uma fogosa Joana da Criméia, tornando-se dolorosamente mãe quando interpreta Ana. Paula Cortezia se sai muito bem como Iara Rosa, a gostosa da companhia, e adquire a gravidade necessária ao fazer Clara, a esposa. Osvaldo Pinheiro faz um doce pai, enquanto é um gutural e primitivo Valter Rosado do circo. Sérgio Zanck não tem muitas oportunidades como participante da companhia, mas tem seus bons momentos como o cunhado e como o torturador, é ele também que anuncia as cenas, no melhor distanciamento brechtiano. Por último, cabe destacar o belo e emocionado trabalho de Miriele Alvarenga como o palhaço Bolota que interpreta Glauco. O sotaque “portinhol” cai bem em Bolota, mas soa estranho em Glauco.
        O comentário musical dirigido por Reinaldo Sanches comenta a ação de maneira perfeita.
        Além de ser uma peça que ainda emociona e faz refletir sobre o Brasil de hoje, a montagem da Companhia Estável relembra um período negro do país (Lembrar é resistir) e resgata o nome de João Ribeiro Chaves Neto, promessa de grande dramaturgo com suas duas peças encenadas (Concerto em 1976 e Patética em 1980), mas que desapareceu dos palcos depois disso. Em tempo: o nome das peças que estavam em preparação em 1975 eram Sabalha Sociedade Anônima e As Mal Traçadas Linhas.
       
        PATÉTICA está em cartaz em pavilhão na área externa da Oficina Cultural Oswald de Andrade até 22 de julho às quintas e sextas às 20h e aos sábados às 18h. Ingressos gratuitos a serem retirados uma hora antes da apresentação.

Wladimir Herzog (1937-1975)

07/07/2017


domingo, 2 de julho de 2017

O DRAGÃO DE FOGO



O TEATRO INFANTIL VAI MUITO BEM, OBRIGADO

        Quando eu era criança havia muito poucos espetáculos feitos especialmente para o público infantil. Meus pais tentavam preencher essa lacuna contentando-se em nos levar a shows de mágica ou de patinação no gelo (Holyday on Ice). Íamos também ao circo, onde além dos números tipicamente circenses (acrobacias, malabarismo e palhaços), se podia assistir a peças de circo teatro, nem sempre interessantes e adequadas para um pequeno de cinco anos.
        Há cerca de 35 anos voltei a assistir a espetáculos infantis para levar minha filha Mariana. Na maioria das vezes eram apresentações constrangedoramente fracas, quer no conteúdo (mensagens edificantes), quer na forma (produções baratas e mal feitas), tratando as crianças como débeis mentais.
        Agora volto a frequentar o teatro infantil para levar minha netinha Laura que está com três anos e meio e é surpreendente a qualidade das montagens: dramaturgias bem elaboradas e traduções cênicas que acompanham o seu nível de qualidade, pensando no ser inteligente que está sentado na plateia, seja criança ou adulto. Os cuidados da produção aparecem nos cenários, trilha sonora, iluminação e nos atores muito bem preparados tanto na interpretação como na interação com a criançada.
        Restrinjo-me apenas aos trabalhos que assisti este ano para exemplificar o que escrevo acima: A Gaiola (texto de Adriana Falcão e direção de Duda Maia), A Princesinha Medrosa (texto de Carolina Moreyra e direção de Kiko Marques), Kazuki e a Misteriosa Naomi (de Marcus Cardeliquio e direção de Heitor Goldflus) e agora O Dragão de Fogo (de Cássio Pires e direção de Marcelo Lazzaratto). Todos excelentes.
        Cássio Pires baseou-se em conto japonês para contar a história do garoto Shun-Li que deve enfrentar perigoso dragão que está ameaçando a sua aldeia.
        O Dragão de Fogo usa pouquíssimos adereços cênicos (leques, lanterna, papel e uma bandeira) e palco nu apenas com grande tapete branco, além dos sugestivos figurinos de Fauze Haten. Lazzaratto aposta na imaginação do público contando com isso com a excelência do trio de atores. Esio Magalhães com sua arte de palhaço interpreta várias personagens atingindo o auge quando faz o rato Shun-Lé (Laura, literalmente, rolou de rir na poltrona). Eduardo Okamoto exibe sua sofisticada expressão corporal saindo-se muito bem em sua primeira incursão no teatro infantil. A surpreendente Luciana Mizutani exibe sua versatilidade tanto na delicada (e louca!) borboleta como no vigoroso e ameaçador dragão.


        Uma criança que assiste a espetáculo desse nível que trata o amor como a coisa mais forte do mundo e que comenta de maneira sutil que é preciso estar atento e forte porque o perigo está sempre à nossa porta só pode sair fortalecida do teatro, além de querer continuar a ir ao teatro. Quer formação de público mais eficiente?
        A peça saiu do cartaz do Teatro Anchieta no sábado, dia 01/07, mas deve cumprir nova temporada no Teatro Cacilda Becker. Atentos, pois!



02/07/2017
       


quinta-feira, 22 de junho de 2017

TOM NA FAZENDA




        Cerca de 448 espectadores  foram as privilegiadas testemunhas da montagem mais impactante apresentada  nos palcos paulistanos na atual temporada. Trata-se de Tom na Fazenda (Tom à la Farme), peça do canadense Michel Marc Bouchard  apresentada por apenas duas noites no Itaú Cultural e que faz grave denúncia à homofobia presente não só na sociedade em geral, mas também e, principalmente, nas relações familiares. Mais uma produção carioca de alto nível que chega a São Paulo.
        Em 2013 Xavier Dolan filmou a peça. O filme foi apresentado no mesmo ano na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas inexplicavelmente nunca chegou ao circuito comercial.
        A montagem idealizada por Armando Babaioff que também traduziu o texto e interpreta a personagem título, foi dirigida com brilho por Rodrigo Portella que coloca os atores em cenário (de Aurora Campos) que vai aos poucos se deteriorando e se emporcalhando, assim como as personagens que, de mentira em mentira, se enveredam em trilha que só poderia desembocar na tragédia final.
        A montagem tem cenas brilhantes como aquela magnificamente coreografada da luta dos dois homens semi despidos com forte teor erótico e que remete ao filme Mulheres Apaixonadas (1969) de Ken Russell onde Oliver Reed e Alan Bates realizavam ação semelhante. Kelzy Ecard também tem momentos inesquecíveis como quando descobre a verdade sobre o filho falecido.



        Armando Babaioff e Gustavo Vaz se entregam de maneira visceral a suas personagens realizando interpretações dignas de serem lembradas para sempre. E a participação de Camila Nhary é bastante significativa trazendo um pouco de humor ao denso drama apresentado.


        Poucas vezes se viu público tão envolvido e impactado com uma peça: após breve silêncio ao apagar das luzes, houve verdadeira ovação por parte do mesmo.
        Atenção produtores paulistanos: TOM NA FAZENDA precisa voltar a São Paulo para desfrutar do sucesso que com certeza obterá com uma temporada regular.
        Por enquanto fica aquele gostinho de “De quem viu, viu!”.



22/06/2017


sábado, 17 de junho de 2017

MIL MULHERES E UMA NOITE


       


        Em uma noite me referindo ao espetáculo Madame Satã escrevi “Quando, porém, a chama brilha tenho que agradecer ao universo por amar o teatro e insistir em frequentá-lo.”. Ainda não refeito dessa sensação eis que a chama voltou a brilhar na noite seguinte ao assistir a Mil Mulheres e Uma Noite, primeira incursão do grupo As Meninas do Conto no teatro adulto.
        As Meninas, que são exímias contadoras de histórias, tomaram como ponto de partida a mais célebre de suas colegas: nada mais, nada menos que Sheerazade!   Com a intenção de denunciar o mundo opressivo vivido por muitas mulheres, uniram-se a Cassiano Sydow Quilici para criar em processo colaborativo a dramaturgia que contempla não só trechos das mil e uma noites, mas também relatos contemporâneos sobre violência e abusos sofridos pelo sexo feminino. O resultado não poderia ser mais coerente.
        Diga-se que o elenco, só de mulheres, teve forte apoio masculino, não só por parte do dramaturgo, mas da sensível direção de Eric Nowinski. O encenador concebeu espetáculo itinerante que explora de maneira surpreendente os espaços do belo edifício que abriga a Oficina Cultural Oswald Andrade, criando cenas de rara beleza.
        As Meninas são excelentes atrizes e cada uma delas brilha em seu momento solo, mas não há como não destacar aquele de Norma Gabriel que é, sem exagero, arrebatador! Norma incorpora uma mulher que após vida relativamente boa envolve-se com belo jovem e por conta de incidente involuntário é torturada pelo companheiro e seus escravos transformando-se em verdadeira múmia viva. Gestos precisos, voz suave ou forte dependendo da situação, tornam a cena digna de qualquer antologia de interpretação. A atriz foi aplaudida em cena aberta!


        A direção musical e preparação vocal das atrizes é responsabilidade da nossa Midas que transforma em ouro todo trabalho que toca: Fernanda Maia. O elenco interpreta muito bem as canções coreografando-as (preparação corporal de Letícia Doreto) de maneira bela e harmoniosa. 
        Mil Mulheres e Uma Noite é longo na medida certa. Nas quase duas horas de duração percorremos os espaços, ora rindo, como na cena em que a cozinheira do palácio conta as razões pelas quais o sultão Sharyar quer assassinar todas as mulheres do seu sultanato, ora indignados, como quando somos confrontados com notícias de violência contra a mulher, e sempre encantados com a interpretação das atrizes.
        O espetáculo nos faz refletir sobre o fato que na maioria das vezes mulheres são molestadas por homens que só estão por aqui porque foram gerados e paridos por uma mulher. Assim rasteja a humanidade!
        MIL MULHERES E UMA NOITE está em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade às sextas às 21h e aos sábados às 20h até 30/06. O ingresso é gratuito e deve ser retirado uma hora antes da apresentação.

17/06/2017


sexta-feira, 16 de junho de 2017

MADAME SATÃ


Um espetáculo típico da Lapa carioca com sotaque mineiro.

        A arte tem que me surpreender, ela tem que tirar meus pés do chão! É por isso que cada vez que eu me dirijo a um teatro vou com a esperança de assistir ao melhor espetáculo da minha vida. Muitas vezes o que vejo são trabalhos corretos, bem feitos, mas sem aquela fagulha que me provoque, muitas outras vezes assisto a encenações ruins, sem brilho que me desenergizam e que fazem eu prometer para mim mesmo que vou ficar um tempo sem ir ao teatro. Quando, porém, a chama brilha tenho que agradecer ao universo por amar o teatro e insistir em frequentá-lo.
        E na última noite a chama brilhou graças ao Grupo dos Dez de Minas Gerais que está apresentando Madame Satã na Caixa Cultural.
        O espetáculo começa na área externa da Caixa com roda de samba onde as prostitutas da peça e os moradores de rua do entorno são as principais atrações
        A seguir o público é direcionado para o espaço cênico onde é recepcionado por uma bela e sorridente negra de seios fartos e pelas prostitutas do cabaré. Cantando Flor, Linda Flor (curiosamente a canção tem o mesmo título daquela cantada em Romeu e Julieta, criação antológica do também mineiro Grupo Galpão) e em provocante ambiente vermelho a peça já ganha o espectador.



      João Francisco dos Santos (1900-1976), mais tarde conhecido como Madame Satã, tinha tudo para ser perseguido: negro, pobre, nordestino e homossexual; a peça faz virulenta denúncia em relação ao preconceito e a intolerância usando a vida dele como mote e por meio de belas canções compostas especialmente para ela por vários compositores, muitos deles pertencentes ao grupo.
        João das Neves e Rodrigo Jerônimo fazem a direção da parte interpretativa e Bia Nogueira dirige musicalmente os ótimos atores/cantores/instrumentistas.
        O recurso dramatúrgico usado para a atuação do protagonista foi dividi-la por três atores com portes físicos bastante distintos: Rodrigo Ferrari é muito alto, viril e tem pinta de galã, Denilson Tourinho é pequenino e muito sensual e Evandro Nunes tem aparência frágil e muito humana. Todos em excelentes interpretações, mostram as diversas faces dessa mítica figura que foi Madame Satã.


        Tudo funciona neste contagiante espetáculo: cenário (despojado, mas muito funcional), os deliciosos figurinos de Cícero Miranda e Débora Neves (também responsáveis pelo cenário), a iluminação de João das Neves e esse maravilhoso elenco que nos deixa com gosto de “quero mais” assim que as luzes se apagam e o público aplaude entusiasticamente.
        Toda essa beleza mereceu apenas oito apresentações em sua temporada relâmpago em São Paulo. Cinco já se foram, mas ainda restam três: sexta (16), sábado (17) e domingo (18) sempre às 19h15 na Caixa Cultural na Praça da Sé. Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados no dia da apresentação a partir das 9h. Não deixe para a última hora, porque tem muita gente voltando para  casa com água na boca sem conseguir entrar. CORRA QUE AINDA DÁ TEMPO!


Em tempo: na noite de quinta feira a sessão contou com uma atração extra: a presença na plateia de João Silvério Trevisan, autor do emblemático Devassos no Paraíso.

16/06/2017