quarta-feira, 28 de agosto de 2013

MARIANA PINEDA - ALERTA, DESPERTA, AINDA CABE SONHAR.


CANTATA PARA UM BASTIDOR DE UTOPIAS

Oh, qué día tan triste em Granada,

Que a las piedras hacía llorar

al ver que Marianita se muere

Em cadalso por no declarar!”

     Garcia Lorca (1898-1936) escreveu Mariana Pineda em 1925 quando tinha 27 anos. É uma das primeiras peças do poeta, mas que já contém muitas das qualidades das obras da maturidade como o forte teor poético e a denúncia dos regimes tirânicos. A peça é inspirada na vida de Mariana Pineda (1804-1831), heroína espanhola da causa liberal. Na peça ela ama o rebelde liberal Don Pedro Sotomayor e borda a bandeira do partido. É presa e enforcada por não delatar seus companheiros de luta. O dramaturgo classificou sua peça como “romance popular em três estampas”.
Mariana Pineda (1804 - 1831)
     Com o título Cantata Para Um Bastidor de Utopias, a Cia. do Tijolo encena a peça na forma de uma cantata com forte inspiração em Santa Maria de Iquique do poeta e compositor chileno Luis Advis que narra o massacre de operários das minas de salitre do Chile e que por sua vez segue as linhas gerais de uma cantata clássica. Pelo que indica o programa as eficientes músicas da cantata foram compostas por seis componentes do grupo e a bela música que abre o espetáculo foi composta por Jonathan Silva.
Garcia Lorca (1898-1936)
     Há um prólogo representado na sala de espera e a seguir o público é convidado a entrar no teatro que representa o espaço do grupo La Barraca de Garcia Lorca. Enquanto o público se acomoda, os atores preparam o espaço e a peça será representada num palco. Cada ato (estampa) da peça é interrompido por intermezzos que fazem uma ponte entre a história contada e a atualidade (desde o assassinato de Lorca por razões parecidas àquele de Mariana Pineda, até o Brasil de hoje: ditadura militar, presos políticos, desaparecidos, mortos sem sepultura). Essas intervenções são pungentes e importantes, mas muito longas, parecendo que o grupo não acredita no vigor da denúncia contida na peça de Lorca e na potência dramática da mesma. Os intermezzos tornam-se mais extensos do que a própria peça alongando o espetáculo para três horas de duração. Eu diria que a direção de Rogério Tarifa e de Rodrigo Mercadante peca pelo excesso de criatividade (o que não deixa de ser um elogio!).
  Rogério Tarifa
     Há um momento, quase no final, em que o público é convidado a sentar em volta de uma mesa coberta com um pano vermelho para compartilhar pão, vinho e experiências com o elenco. Na noite em que assisti ao espetáculo fomos agraciados com o comovente relato de Vera Paiva sobre o desaparecimento de seu pai Rubens Paiva durante a ditadura militar e as consequências para toda sua família.
     A cena final da peça (o enforcamento de Mariana) é representada numa instalação externa ao espaço principal, onde há várias campas com velas acesas nas quais poderão repousar aqueles mortos, até então, sem sepulturas.
     O espetáculo é emocionante e extremamente necessário, num momento em que pressentimos movimentos que podem trazer de volta ditaduras e regimes de exceção. Na bela canção do início do espetáculo há o refrão: “Alerta, desperta, ainda cabe sonhar” com um implícito “e lutar sempre!”, pois como disse Vera Paiva, a liberdade e a democracia se conquistam dia a dia.
     Um último comentário sobre o ótimo elenco que brilha de maneira homogênea, mostrando a força do coletivo da Cia. do Tijolo e a preparação vocal do grupo, realizada pela talentosa Fernanda Maia.
     Cantata Para Um Bastidor de Utopias está em cartaz no Sesc Pompeia até 08 de setembro, de quinta a sábado às 20h e domingo às 19h.

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