sexta-feira, 21 de dezembro de 2012


Lista de indicados ao Prêmio CPT 2012 – 2º semestre

21 de dezembro de 2012
O elenco de "Ficções" é um dos indicados ao prêmio.
 
Comissão julgadora:
Christiane Galvan (Cia. Vagalum Tum Tum)
Ênio Gonçalves (Ator e Diretor)
José Cetra (UNESP)
Luiz Fernando Ramos (USP)
Raquel Rollo (Trupe Olho da Rua – Santos/SP)
1 – Dramaturgia: criação individual ou coletiva em espetáculo apresentado em sala convencional, rua ou espaço não convencional
1– Evill Rebouças e Grupo por “Maria Miss”, Mesa2 Produções Artísticas.
2- Luís Alberto de Abreu por “Recusa”, Cia de Teatro Balagan.
3- Martina Sohn Fischer por “Aqui”, Club Noir.
2 – Direção: criação individual ou coletiva em espetáculo apresentado em sala convencional, rua ou espaço não convencional
1 – Yara Novaes por “Maria Miss”, Mesa2 Produções Artísticas.
2- Francisco Medeiros por “Facas nas Galinhas”, Barracão Cultural.
3- Eric Lenate por “Rabbit”, Companhia Delas de Teatro.
4- Maria Thaís por “Recusa”, Cia de Teatro Balagan.
3 – Elenco: em espetáculo apresentado em sala convencional, rua ou espaço não convencional
1 – Cia. de Teatro Balagan por “Recusa”.
2 – Cia. Hiato por “Ficção”.
3 – Lume Teatro por “Os Bem Intencionados”.
4 – Trabalho apresentado em sala convencional
1 – “Maria Miss”, da Mesa2 Produções Artísticas.
2 – “Rabbit”, da Companhia Delas de Teatro.
3 –“Recusa”, da Cia. de Teatro Balagan.
5 – Trabalho apresentado em rua
1 – “Relampião”, da Cia do Miolo e Cia Paulicea.
2 – “A Cobra Vai Fumar”, do Teatro Popular União e Olho Vivo (TUOV).
3 – “Origem Destino”, da Companhia Auto-Retrato.
6 – Trabalho apresentado em espaços não convencionais
1. “Terror e Miséria no Novo Mundo Parte III – A República”, Cia. Antropofágica.
2 – “Terra de Santo”, Cia. Os Fofos Encenam.
7 – Trabalho para platéia infanto juvenil: apresentado em sala convencional, rua ou espaço não convencional
1 – “Meu Pai é Um Homem Pássaro”, Cia. Simples.
2 – “Rua Florada, Sem Saída”, Casa da Tia Siré.
3 – “A Linha Mágica”, Fabulosa Companhia.
4 – “A Menina Lia”, Cia. do Fubá.
8 – Grupo ou Companhia revelação: do interior, litoral ou capital do Estado
1 – Fabulosa Companhia (São Paulo).
2 – Coletivo Território B (São Paulo).
3 – Coletivo de Galochas (São Paulo).
9 – Trabalho apresentado no interior e litoral paulista: em sala convencional, rua ou espaço não convencional
1- “Circo K”, Boa Companhia e Grupo Matula Teatro (Campinas-SP).
2 – “Rei do Mundo” – Grupo Fora do Sério (Ribeirão Preto-SP).
3 – “Negrinha”- Oficina do Imaginário (Santos-SP).
10 – Projeto Visual: compreendendo a integração orgânica entre os elementos plásticos e visuais do espetáculo e sua realização cênica – iluminação, cenografia, figurino, adereços e maquiagem
1 – “Recusa” – Direção; Maria Thais. Cenografia e Figurino: Márcio Medina. Iluminação: Davi de Brito. Cia. de Teatro Balagan.
2 – “Ficção” – Direção: Leonardo Moreira. Direção de arte (cenário e desenho de luz): Marisa Bentivegna. Assistência de cenário: Ayelén Gastaldi e Julia Saldanha.Figurino: João Pimenta. Pintura artística: Igor Alexandre Martins. Fotos e vídeos: Otávio Dantas. Criação Gráfica: Cassiano Tosta / dgraus. Cia. Hiato.
3- “Pais e Filhos” – Direção: Adolf Shapiro. Cenografia: Laura Vinci. Figurino: Marichilene Artisevskis. Desenho de luz: Cibele Forjaz e Wagner Antonio. Mundana Companhia.
4 – “Terra de Santo” – Direção: Fernando Neves e Newton Moreno. Cenário: Marcelo Andrade, Newton Moreno e Zé Valdir. Figurinos e Maquiagem: Carol Badra e Leopoldo Pacheco. Iluminação: Eduardo Reyes. Cia. Os Fofos Encenam.
11 – Projeto Sonoro: compreendendo a integração orgânica entre os elementos sonoros do espetáculo e sua realização cênica – palavra, canto, trilha original ou adaptada, arranjos e sonoplastia
1 – “Relampião” – Cia. do Miolo e Cia. Paulicea
Direção musical: Charles Raszl.
2 – “Recusa” – Cia. Teatro Balagan
Direção musical: Marluí Miranda
3- “Os Bem Intencionados” – Lume Teatro
Direção musical: Marcelo Onofri. Músicos – Marcelo Onofri (teclado), Leandro Barsalini (percussão) e Eduardo Guimarães (acordeão).
4 – “Terror e Miséria no Novo Mundo Parte III – A República” – Cia. Antropofágica
Direção musical: Lucas Vasconcelos. Músicos: Bruno Miotto, Bruno Mota, Danilo Agostinho e Lucas Vasconcelos. Preparação Vocal: Gabriela Vasconcelos.
12 – Ocupação de espaço: compreendendo sala convencional, rua ou espaços não convencionais, no interior, litoral ou capital do Estado
1 – Hangar de Elefantes por “Terra à Vista” – com o espetáculo itinerante que tem início no Coreto Central da Praça Dom Orione (Entre as ruas 13 de maio com a Rua Rui Barbosa – Bela Vista) e segue pelas ruas do bairro.
2 – O Povo em Pé por “Máquina do Tempo” com três experimentos cênicos: Um percurso pela cidade, uma ação-encontro em um parque e um espetáculo.
13 – Publicação dedicada ao universo do teatro: suas diversas vertentes, relações e linguagens, em projetos de grupos e companhias teatrais, instituições ou similares
1 – Revista “Arte e Resistência na Rua” – MTR/SP 2012.
2 – Livro “Teatro e Vida Pública – O fomento e os Coletivos Teatrais”, Org. Flávio Desgranges e Maysa Lepique – Editora Hucitec.
3 – Revista “aParte 5” – do Teatro da Universidade de São Paulo (TUSP).
4 – Revista “A[l]berto #2” 2012 – da SP Escola de Teatro.
5 – Revista “Rebento” (Artes do espetáculo n° 3 (UNESP).
14 – Grupo ou Cia com sede em “espaços fora de circuito comercial ou tradicional”
1 – Telhado Cultural Engasga Gato em Ribeirão Preto SP.
2 – Teatro da Rua Eliza – São José dos Campos SP.
3 – Espaço Cultural Popatapataio – Caraguatatuba SP.
15 – Mostras e/ou festivais teatrais realizados por grupos e/ou movimentos
1 – 7º FESTCALL – Festival Nacional de Teatro de Campo Limpo – Trupe Artemanha.
2 – 7ª Mostra de Teatro Lino Rojas – MTR/SP.
3 – 7ª Mostra de Teatro de São Miguel Paulista – Buraco D`Oráculo.
4 – 6º Festival Internacional Paidéia de Teatro para a Infância e Juventude – Cia. Paidéia de Teatro.
16 – Prêmio Especial
1. Ocupação Cultural do Coletivo Dolores Boca Aberta e o Festival Teatro Mutirão – Ocupação político – artística numa praça ao lado do metrô Artur Alvim (Zona Lesta) com 15 dias de ocupação e atividades de formação, apresentações de peças teatrais, apresentações musicais e montagem de um monumento na praça. Com a participação de diversos grupos parceiros entre os dias 1 e 15 de setembro de 2012.
2. Evaldo Mocarzel – Pela realização de filmes documentários sobre dezenas de coletivos paulistanos, seus processos e espetáculos.
3. Bob Sousa – Pela realização de farta documentação fotográfica dos Coletivos Paulistanos.
Homenagem aos artistas falecidos em 2012, entre eles:
- Abrahão Farc
- Alcione Araújo
- Clóvis Garcia
- Fernando Peixoto
- João Otávio
- Hedy Siqueira
- Tiago Klimeck

domingo, 11 de novembro de 2012

O QUE É UM ASSALTO A UM BANCO COMPARADO COM A FUNDAÇÃO DE UM BANCO?

     Revi ontem à montagem de Bob Wilson de A Ópera dos Três Vinténs com o Berliner Ensemble. Esteticamente irretocável, talvez aí esteja o maior senão ao espetáculo. Eu havia assistido na estreia , quatro dias antes e na revisão, a perfeição na sincronia dos efeitos sonoros e a beleza de cenas como a do bordel me incomodaram por sobrepor a forma ao conteúdo.  Pode cheirar a ranhetice e até a conservadorismo em relação à obra de Brecht, mas é o meu ponto de vista. De qualquer maneira me rendi à beleza do espetáculo considerando que há duas cenas absolutamente antológicas: o dueto de Lucy e Polly na presença de um debochado Mac e o solo de Angela Winkler na Canção de Salomão. De resto, tudo é perfeito: a iluminação, a coreografia, a cenografia, a sonoplastia, a execução das músicas.
Bertolt Brecht (1898-1956)
     No elenco “mais que perfeito”, destaques para Christopher Nell (um excelente Macheath, lembrando o mestre de cerimônias de Joel Grey em Cabaret e também Charlie Chaplin na hilária cena da fuga da prisão); Traute Hoess (uma pândega Mrs. Peachum); Jürgen Holtz ( um senhor idoso com grande energia na pele de Mr. Peachum); Anna Graenzer (como Lucy, uma pequena , mas marcante aparição com poderosas nuances de voz;  Axel Werner     ( como Brown, o chefe de polícia, amigo de infância de Mac) e finalmente, Angela Winkler

     Curioso observar os momentos que inspiraram Chico Buarque para as canções de A Ópera do Malandro: a canção do sim e do não cantada por Polly ,inspirou Terezinha; a canção do dueto de Lucy e Polly , inspirou O Meu Amor e a canção Jenny e os Piratas cantada por Polly ,inspirou Geni e o Zepelim.

     Cabe salientar que, a despeito da liberdade da forma, Bob Wilson respeitou integralmente o texto de Brecht, assim como , as belíssimas canções  originais de Kurt Weill.     
Brecht e Kurt Weill (1900-1950)
     Na próxima semana, o grupo apresenta Lulu de Frank Wedekind tendo Angela Winkler como a protagonista e com trilha sonora de Lou Reed.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

MYRIAN MUNIZ 81 ANOS.

            O que esperar de um sujeito de 28 anos, engenheiro, pós-graduado em administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas e trabalhando numa multinacional holandesa, senão o retrato perfeito de um futuro “executivo burguês bem sucedido”? Não fossem as constantes escapadelas para as artes (cinema, teatro e música), a indignação com a ditadura brasileira e a Myrian Muniz, isso teria acontecido.  Corria o ano de 1972 e esse jovem sentia a necessidade de algo que mudasse o rumo de sua vida: nos fins de semana dirigia um grupo de teatro na PUC e buscava algo mais. Foi então que o Sesc Consolação abriu um curso intitulado “Teatro – Comunicação e Criatividade” ministrado por Myrian Muniz e seu então marido Sylvio Zilber. Eu já havia assistido a algumas peças com Myrian (O Inspetor Geral, La Moschetta e Marta Saré, entre outras) e admirava muito aquela atriz com interpretações viscerais e dona de voz inconfundível, então resolvi me inscrever no curso.   No prospecto anunciava-se que “as aulas visam exercitar o autoconhecimento físico e psíquico, o inter-relacionamento e a dinâmica do comportamento”. Enquanto Sylvio cuidava do físico por meio de aulas de ginástica e expressão corporal, Myrian cuidava de mexer com nossos corações e mentes por meio de exercícios de comunicação e criatividade e de laboratórios de sensibilidade e interpretação. Já no primeiro dia, durante a costumeira apresentação individual, Myrian solicitou que as pessoas se apresentassem cantando, a seguir propôs exercícios de toque físico, encerrando com a solicitação de que cada um indicasse três de suas qualidades e três de seus defeitos. Houve quem chorou nesse primeiro encontro e até quem desistiu do curso. Com muita sensibilidade, mas também com certa agressividade, Myrian pegava pesado, criticando individualmente posturas e ações dos integrantes.


            E assim sucederam-se as aulas. Eram aulas de três horas e meia, três vezes por semana. Na primeira hora e meia havia esquentamento físico com o Sylvio e nas duas horas seguintes Myrian desenvolvia exercícios com o uso de objetos, de instrumentos musicais (principalmente castanholas), de poemas e textos teatrais. Esses exercícios eram de tal maneira viscerais que saíamos das aulas, literalmente, cambaleando. Por meio desses exercícios o grupo ficou muito unido e até íntimo, uma vez que nos desnudávamos durante a realização dos mesmos. Não foram poucos os preconceitos e os sentimentos de culpa que deixamos naquela sala do Sesc Consolação. Tudo jogado no lixo, que era o local mais apropriado para tais coisas. Nunca mais fui o mesmo após esses quatro meses.
            Myrian era transgressora e corajosa. Naquele período ela foi convidada para dirigir um grupo de teatro no Clube Harmonia, ponto de encontro da alta burguesia paulistana. Escolheu um texto de Brecht para montar com o grupo (seria bem mais cômodo ter selecionado um vaudeville ou algo do gênero) e nada menos que “O Casamento do Pequeno Burguês”! Claro que foi um escândalo e ela convidou o nosso grupo para assistir ao espetáculo junto com as senhoras bem casadas do clube. Essa era a Myrian Muniz.
            Nunca mais perdi o contato com ela. Em cada peça que ela atuava, eu ia até o camarim cumprimentá-la e reafirmar que ela tinha sido muito importante na minha formação humanista; ela, então, dava aquela gargalhada tão sua e me abraçava.
            A última vez que a vi foi na homenagem que ela recebeu no Teatro de Arena no dia 20 de outubro de 2004. Emocionada e bastante fragilizada fisicamente, Myrian ajoelhou-se e beijou aquele chão, testemunha de grandes momentos de sua carreira. Dois meses depois Myrian partia, deixando em cada de nós um pouco de sua irreverência e coragem. Obrigado, Mestra!

Foto de Vania Toledo


terça-feira, 16 de outubro de 2012

FICÇÃO É A REALIDADE DA COMPANHIA HIATO

     A Companhia Hiato está de volta. Houve um bem sucedido espetáculo em 2007-2008(Cachorro Morto), seguido do premiado Escuro (2009-2010) culminando com O Jardim (2011), espetáculo de muita sensibilidade com uma concepção cênica arrojada e inovadora que também recebeu plena aceitação do público e da crítica. Todos esses trabalhos mostraram o talento tanto do diretor/dramaturgo Leonardo Moreira como do jovem elenco que em grande parte está presente desde o primeiro espetáculo e ainda da equipe técnica com destaque para a cenógrafa e iluminadora Marisa Bentivegna. E eis que agora temos Ficção, voltando o grupo a se superar e a nos surpreender.
     Os temas caros ao grupo como os limites entre ficção e realidade, os assuntos pessoais de cada integrante, a relatividade do tempo e as questões da memória voltam a ser trabalhados desta vez por meio de solos dos atores Aline Filócomo, Fernanda Stefanski, Luciana Paes, Maria Amélia Farah, Thiago Amoral e Paula Picarelli. O espetáculo é dividido em dois solos de uma hora cada por noite, sendo necessário três deslocamentos ao Sesc Pompeia para assistir a todo o trabalho. Garanto que vale as viagens!

Antessala

     O espaço concebido por Marisa Bentivegna está bem de acordo com o intimismo do espetáculo. Há uma antessala onde ficam as mesas de som e luz e muitas fotos de diversas fases da vida dos atores, em seguida podemos passear pelo camarim com dois lugares onde os atores da noite deixam os seus pertences e preparam-se à vista do público (referência muito bem vinda ao que é feito pelo grupo francês Théâtre du Soleil). O espaço cênico em si contém de um lado as paredes de tijolinho e as janelas (por onde se avista os passantes na rua) e do outro um cenário que imita não só as paredes “de verdade” como uma janela com a projeção de passantes. É nesse espaço nu de objetos de cena que os atores farão os seus solos para 45 privilegiados espectadores.

Luciana Paes e Paula Picarelli preparando-se no camarim.

     Os solos são independentes, mas possuem alguns elos como Paula Picarelli passeando no camarim com um traje que tem a ver com a cena da Luciana Paes, ou a frase “No more” que é repetida em três das cenas ou ainda outros pequenos detalhes que não vale a pena citar sob pena de tirar as sensações de surpresa e descobrimento reservadas a  cada espectador. É preciso estar atento e forte, já dizia Caetano Veloso.

Parte do espaço cênico com vistas das paredes-cenário e do camarim.

     Todos os solos foram criados a partir da experiência pessoal de cada ator mesclando realidade com ficção, nunca ficando claro o limite entre uma e outra. A maioria dos conteúdos tem a ver com relações familiares não resolvidas (uma irmã que tem diferenças com outra irmã, um filho não aceito pelo pai, uma pessoa que perdeu um ente querido, outra que não gosta de sua aparência física). Em se tratando das experiências desses seis jovens de classe média, pelo espetáculo pode-se concluir  que a eles incomodam mais as questões individuais do que aquelas políticas (apesar que tudo é político) e isso não deixa de ser um reflexo da atual juventude brasileira . O fato é que da maneira como estão encenados, esses solos extrapolam o individual fazendo o espectador refletir sobre o coletivo.
     O interesse pelos solos varia em função de seus conteúdos, da identificação do espectador com este ou aquele e pela forma como os mesmos são apresentados, incluindo neste último ponto o desempenho do ator.
     O trabalho do elenco é primoroso merecendo todos os prêmios de interpretação do ano e os conteúdos variam, sendo o mais consistente -no meu ponto de vista- aquele feito pela Luciana Paes (que também é a melhor em cena), seguido do realizado pela Aline Filócomo e daquele interpretado pelo Thiago Amoral. Repito que esses são os meus destaques, sem absolutamente ter deixado de gostar e de me emocionar, principalmente com as interpretações, dos outros três solos.
     Corajoso e comovente, Ficção arranca lágrimas e faz pensar. Perfeito equilíbrio entre razão e emoção. E não é para isso que servem as artes?
     Ficção está em cartaz no Sesc Pompeia de terça a sábado às 21 horas e aos domingos e feriados às 19 horas até 04/11/2012.
     Escala dos solos: Terças e sábados: Luciana e Paula / Quartas e domingos: Maria Amélia e Thiago / Quintas e sextas: Fernanda e Aline.
     Corra para garantir o seu privilegiado lugar. IMPERDÍVEL.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

EU SOU "SOE IKIN EY"

     
     Após o bem sucedido Prometheus – A tragédia do fogo, a Cia. Balagan dirigida por Maria Thaís está de volta com um novo espetáculo. Trata-se de Recusa, em cartaz em muito bem vindo novo espaço teatral situado na SP Escola de Teatro na Praça Roosevelt.
     Louve-se em primeiro lugar o trabalho vocal e corporal de Eduardo Okamoto (ator convidado) e seu bem sucedido contraponto interpretado por Antonio Salvador.

     A partir de notícia de jornal sobre os dois últimos sobreviventes de uma tribo indígena que recusaram a fazer contato com a dita civilização, Luís Fernando de Abreu (responsável pela dramaturgia do espetáculo) realiza um trabalho ousado ao abandonar a narrativa tradicional e enveredar pela chamada narrativa fragmentada expondo momentos de vários duplos (Kuarahy e Jasy, Macunaíma e Piá, Pud e Pudleré) por meio de seus hábitos e lendas.
     A encenação de Maria Thaís é vigorosa e concentra-se nas ações dos dois atores, apesar de ter grandes aliados em Marcio Medina (cenografia e figurinos), Marluí Miranda (direção musical, supervisionando os elementos instrumentais  que são os atores) e Davi de Brito (iluminação).
     O programa da peça é muito informativo e tem belas fotos de Ale Catan. Entre as muitas informações uma curiosidade: o grupo fez uma viagem à Rondônia em 2011 e no contato com os índios da clã Paiter confrontaram hábitos e palavras, sendo que “os velhos conversaram entre si para escolherem algumas palavras do seu vocabulário que pudessem equivaler aos termos teatrais. Para espectadores, escolheram: SOE IKIN EY. Perguntamos o sentido da palavra e eles responderam: OS CURIOSOS.”

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

MAIS UMA VEZ ALICE... Que bom!

     A Alice de Lewis Carroll é fonte de inspiração inesgotável para os artistas. No teatro Alice já foi usada de todas as maneiras possíveis: infantil, abusada, estigmatizada, drogada (afinal, o que é aquele chá?); sendo Alice Através do Espelho (1999) da Armazém Companhia de Teatro dirigida por Paulo de Moraes a mais memorável (ali por meio de recursos cênicos, o público atravessava o espelho, aumentava e diminuía de tamanho e escorregava pelo buraco, sentindo as mesmas sensações da protagonista).
     Eis que surge uma nova Alice, agora sob a ótica de René Piazentin e o Núcleo Imaginário e ela continua nos surpreendendo. Clássico é isso aí; quando bem tratado, rejuvenesce e se torna atual. Uma produção bastante simples cujo cenário é composto de caixas de papelão que contém os brinquedos de Alice e que se sustenta na interpretação dos sete jovens e talentosos atores. Há momentos bastante engraçados que remetem ao teatro do absurdo e outros extremamente poéticos como o diálogo entre Alice e o pássaro Dodô cuja raça se extinguiu por não saber voar. Tudo gira em torno do que é real e o que é imaginário. E nossa vida não é mais ou menos assim? Afinal se você não sabe para onde quer ir, pode ir para qualquer direção. Qual o sentido da direção? Também não importa.
     Uma Alice Imaginária em cartaz no Teatro Commune às quintas e sextas  às 21h até 26/10/2012.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

NAVEGANDO PELOS RIOS DE SÃO PAULO (DO CENTRO ATÉ SANTO AMARO)

     Mais um espetáculo itinerante pelas ruas da cidade soma-se ao extremamente bem sucedido Barafonda da Cia. São Jorge de Variedades (já saiu de cartaz) e ao Bom Retiro 958 metros do Teatro da Vertigem. Desta vez é a Companhia Auto Retrato que nos propõe uma viagem na peça Origem/Destino circulando não pelas ruas, mas pelos rios e córregos de São Paulo! Explico: O trajeto é o mesmo dos fluxos de água que foram canalizados, soterrados e hoje muitos deles estão sob os nossos pés. O que seria de São Paulo se esses rios ainda estivessem na superfície e servissem como vias de transporte para a cidade? Essa é uma das questões levantadas pelo espetáculo que tem momentos de rara poesia como aquele das lavadeiras esfregando suas roupas no Córrego Anhangabaú, enquanto um Prestes Maia inflamado do alto do viaduto (aqueduto segundo a nossa guia) gasta sua retórica a favor da canalização dos rios e Saturnino de Brito defende a posição contrária.

     O trajeto inicia-se exatamente ao meio dia nas escadarias da Catedral da Sé e segue até a Ladeira da Memória, tendo como fio condutor a personagem Alice (baseada em relatos colhidos pelo grupo) que teve um namorado chamado Domenico e agora vai visitar a viúva do mesmo; outras histórias entrelaçam-se com essa, sempre com grande interação com os acompanhantes e os passantes, que às vezes se confundem com as personagens interpretadas pelos atores. Esse trajeto dura aproximadamente duas horas e, sob meu ponto de vista, poderia ser encurtado em pelo menos meia hora, uma vez que ainda haverá mais uma hora de percurso com o ônibus. Há um belo número musical interpretado por um quarteto no final desta fase do espetáculo. A seguir o grupo segue de ônibus até Santo Amaro, porém não os acompanhei até o final. O programa da peça dá uma boa ideia dos trajetos a pé e de ônibus. VALE A PENA CONFERIR!


ORIGEM DESTINO – Espetáculo da Companhia Auto-Retrato 
QUANDO: segundas e quartas-feiras, de 17 de Setembro a 31 de Outubro, sempre às 12h
LOCAL DE SAÍDA: Praça da Sé, em frente à Catedral
CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA : Livre
QUANTO: Gratuito
É necessário trazer seu bilhete único ou R$3,00 trocado [sujeito a lotação do ônibus].
Em caso de chuva, não haverá espetáculo.
INFORMAÇÕES: producao@ciaautoretrato.com.br

sábado, 29 de setembro de 2012

PERGUNTAS A UMA JOVEM QUE VAI PELA PRIMEIRA VEZ AO TEATRO.

     A - Você pode descrever ao que acabou de assistir?
     B - Estava tudo escuro, aí acendeu uma luzinha fluorescente ao fundo e no alto do palco. Um sujeito, misto de frade capuchinho e chapeuzinho (só que não era vermelho, era preto), com uma voz muito estranha ficou reclamando da vida na penumbra e conversou com duas meninas com voz fininha. Ficou mais escuro. Voltou a acender a tal luzinha fluorescente ao fundo. O fradinho mudou de lugar e veio um sujeito dar conselhos para ele, conselhos que o fradinho rejeitou esbravejando. De raspão escutei que esse sujeito era o oceano. Ficou mais escuro de novo. Acendeu aquela luzinha ao fundo. Uma mulher com voz “tremerola” veio falar com o fradinho que, mais uma vez, mudou de lugar, mas continuava muito bravo. Voltou a ficar mais escuro para de novo acender aquela luz ao fundo e o fradinho estar noutro lugar. Um sujeito com voz bonita apareceu e deu uns conselhos para o fradinho, as meninas com voz fininha disseram para ele aceitar os conselhos, mas ele foi intransigente e deu uns berros com elas e com o sujeito de voz bonita que então o ameaçou dizendo que um abutre ia lhe comer o fígado. Mais uma vez ficou mais escuro. Aí o fradinho veio pra frente do palco e acendeu um isqueiro, falou mais umas coisas ininteligíveis e apagou o isqueiro. Breu. Acabou.
Foto de divulgação.

     A - Por que a peça tem esse nome?
     B - Sei lá, não faço a menor ideia.
     A - Já ouviu falar do autor?
     B – Eu li alguma coisa sobre ele.
     A - E aí gostou da experiência?
     B - Nossa! Isso é que é teatro?  Durou pouco, mas me pareceu uma eternidade. Teatro?!  Nunca mais!
ATENÇÃO: ESTA É UMA OBRA DE FICÇÃO, QUALQUER SEMELHANÇA COM FATOS VERÍDICOS É MERA COINCIDÊNCIA.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

ZÉLIA E REGINA TÃO CANTATIANDO O TATIT NO TUCA.



     Estamos brincando com o título (TôTatiando) de um dos melhores espetáculos em cartaz na cidade. Zélia Duncan num momento muito inspirado resolveu encenar as canções(com letras bastante teatrais) de Luiz Tatit e chamou Regina Braga para dirigi-la. Resultado: Show? Teatro? Peça Musical? TUDO ISSO e um pouco mais. Os guias culturais devem estar com dificuldade para classificar este trabalho. Mas classificação é o que menos importa. O espetáculo parte de um roteiro muito bem elaborado que acerta na sequencia das canções e inclui textos da própria Zélia e até um poema de Mário de Andrade. O cenário de Simone Mina banhado pela iluminação de Wagner Freire emoldura a apresentação e Zélia, muito à vontade, diz textos, dança, rodopia pelo palco (momento delicioso quando ela interpreta Rodopio) e também (ora vejam só)canta! Acompanhada de apenas dois músicos (Webster Santos e Tércio Guimarães) Zélia visita 15 canções do repertório de Tatit e termina o espetáculo com Essa É Pra Acabar (final quase clichê dos shows do grupo Rumo, mas que aqui adquire novas cores pela maneira da cantora tratar a canção). Tudo funciona perfeitamente e mesmo o público acostumado a aplaudir os cantores até quando eles cruzam as pernas, comportou-se à altura praticamente não aplaudindo ao final da cada canção dando assim unidade ao espetáculo e ovacionando merecidamente ao final. Sem bis, o show terminou com uma hora de duração e se sai do teatro com a alma alimentada. Espetáculo que-assim como Rosa dos Ventos (Maria Bethânia, 1972), Falso Brilhante (Elis Regina, 1975) e Micróbio do Samba (Adriana Calcanhoto, 2012)- revoluciona o conceito de show musical e entra para a história como um dos grandes espetáculos musicais brasileiros realizados por uma cantora.
Zélia, Tatit e Regina.
     TôTatiando está em cartaz só até o próximo domingo no Tuca. Sexta e sábado às 21h30 e domingo às 19h.

CIRANDA DAS FLORES (AH! SE ESSE PÚBLICO FOSSE MEU...).

     No sábado à tarde fui ao Teatro Ressurreição assistir ao espetáculo Ciranda das Flores da Cia. Prosa dos Ventos. Pouco mais de 15 pessoas na plateia, entre adultos e crianças. Espetáculo singelo e divertido sobre o relacionamento entre uma jardineira e um semeador que estão apa...apa...apa...apaixonados, mas por estarem apa...apa...apa...apavorados, não se declaram. Tendo por base cantigas infantis e até uma famosa marchinha de carnaval o espetáculo flui suavemente; sempre tendo flores, plantas e jardins como tema e encantando adultos e crianças. Sente-se que os atores gostariam de uma maior interatividade com os pequenos, mas o pouco público impediu que isso acontecesse na sessão em que estive presente. Helena Ritto  ( ótimo tempo de comédia por meio de suas expressões corporal e facial) e Elcio Rodrigues (comovente como o preterido Alecrim Dourado) são os protagonistas deixando a narração para a Espada de São Jorge, ou melhor, Florzinha, ou melhor, Cristiano Gouveia (violeiro e cantor). O cenário simples e criativo cabe, segundo o elenco, numa mala, o que favorece a itinerância do espetáculo, que originalmente foi concebido para a rua. Direção segura de Fábio Torres, deixando os atores à vontade e mantendo o frescor de um espetáculo que já tem quatro anos de vida (estreou em 2009).

Foto de Fábio Torres

     Na saída do teatro surpreendi-me com uma multidão aguardando no hall do teatro para assistir a outra peça infantil calcada em figura famosa que já foi personagem de Walt Disney e é sempre citada na mídia. Ah, a publicidade, a mercadoria, o produto! Livre de qualquer influência tenho certeza que os pequenos iriam optar pela singeleza de Ciranda das Flores, mas papai e mamãe, responsáveis e formadores, optam pelo já conhecido e espetacularizado. Nesses tempos de Internet, televisão, Miami, Disneyworld, Xuxa, não sobra espaço para olhar as flores do jardim da nossa casa. Não tem importância “Prosa dos Ventos”... Resistir é preciso!
     Atenção papais e mamães que ainda acreditam na formação humanista de seus filhos: Ciranda das Flores ainda será apresentada no Teatro Ressurreição no próximo domingo, dia 30, às 16 horas.

sábado, 22 de setembro de 2012

ERIC LENATE E RABBIT: CRIATIVIDADE DE GENTE JOVEM.

     Em 2008, Eric Lenate era um dos atores do Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) coordenado por Antunes Filho e nos surpreendeu com uma segura e criativa encenação do também surpreendente texto de Silvia Gomes O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade. Apenas uma experiência na direção de um bom ator? O jovem encenador (ainda não tem 30 anos) está provando que não. Após a encenação de Natureza Morta de Mario Viana (que está de volta ao cartaz), fez um bom trabalho em 2011 com Limpe Todo o Sangue Antes Que Manche o Carpete de Jô Bilac (também ainda em cartaz). Em 2012, Lenate estreia mais três encenações: Valsa nº 6 de Nelson Rodrigues (não assisti), Um Verão Familiar texto irregular de João Fábio Cabral do qual o encenador faz uma leitura bastante criativa e este Rabbit da dramaturga inglesa Nina Raine.

     Rabbit é uma peça sobre jovens escrita, dirigida e interpretada (com a honrosa exceção do jovial Nelson Baskerville) por seus pares. A concepção cenográfica de Lenate misturando elementos infantis (o carrossel, a piscina de bolas – que provoca ótimos efeitos cênicos -) com os diversos tubos de soro que alimentam o terminal pai de Bella no hospital define todo o espírito da peça que entrelaça a festa de aniversário na balada Rabbit onde os jovens literalmente jogam conversa fora com cenas da memória da aniversariante Bella em relação ao pai agonizante. Não conheço o texto, mas não há dúvida que a direção de Lenate o enriqueceu. Destaque também para a iluminada interpretação de Julia Ianina como Bella.

     É estimulante constatar que gente jovem entre na rodada junto com os medalhões do teatro. Sangue novo, vida nova!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

SAUDADES DE UM TEMPO MAU


      
    Assisti ontem ao filme Tropicália, dirigido por Marcelo Machado. O filme nos remete aos anos 1967/1969, época sombria e de triste memória em que o Brasil estava sob o controle da ditadura militar. Por outro lado havia uma efervescência não só na música, mas em toda a cultura brasileira: Glauber Rocha e o cinema novo; Hélio Oiticica, Ligia Clark e tantos outros nas artes plásticas; José Celso Martinez Corrêa com seu revolucionário O Rei da Vela. Explosão de criatividade e talento numa época de grande repressão. Esses dois fatos estariam interligados? O artista precisa estar sob pressão para poder criar? Essas foram algumas das questões que me surgiram ao assistir a esse belo documentário. As cenas da repressão, do menino Edson morto pela polícia no Calabouço, das passeatas que mobilizavam milhares de pessoas, da prisão e do exílio de Gil e Caetano conduzem à reflexão e também a uma tristeza muito grande. Há uma cena antológica em que Caetano Veloso canta Asa Branca (provavelmente num programa da televisão europeia, enquanto ele estava no exílio) que resume toda a desesperança que tomava conta do povo brasileiro naquela época. Em resumo, o filme nos deixa com um amargo sabor de saudades.

     Bom complemento para Tropicália é o filme Cara ou Coroa de Ugo Giorgetti, também em cartaz na cidade. Passa-se em 1971 e faz uma crítica carinhosa àquela que na época era chamada de “esquerda festiva” (artistas e intelectuais ditos de esquerda, mas que não se engajavam em nenhum movimento mais radical de combate ao regime militar e até se permitiam certos “divertimentos burgueses” como comer uma pizza ou tomar um chope). Sem maniqueísmo o filme mostra os exageros efetuados não só pela direita, mas também pela esquerda. A câmera em zoom fixa-se principalmente nas expressões faciais das personagens. Impactantes as figuras dos ativistas clandestinos, magnificamente fotografados por Walter Carvalho. Impossível não mencionar as interpretações dos veteranos Walmor Chagas e Otávio Augusto e a espontaneidade de Emílio de Mello. O filme capta o espírito da época sem se utilizar de muitos recursos físicos. Há um sopro de esperança ao final do filme, mas as palavras da crítica de teatro vivida por Juliana Galdino ressoam em nossas cabeças: “Quem viver verá onde vai dar tudo isso...”
     No aspecto puramente musical outro bom complemento para Tropicália é o documentário Uma Noite em 67 dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

MIRADA 4 – ÚLTIMOS DIAS

     Assisti a mais oito espetáculos nesta última semana do festival:
     Amarillo do México   Espetáculo que usa vários recursos áudio- visuais para narrar as desventuras e as violências sofridas por aqueles mexicanos que tentam imigrar ilegalmente para os Estados Unidos. O Amarillo do título é um povoado no Texas na fronteira entre os dois países. Visualmente requintado, mas desprovido de um roteiro consistente.
Amarillo - Foto de Wesley Souza

     Pais e Filhos da Mundana Companhia de Teatro (Brasil) – Foi apresentado um ensaio do espetáculo que ainda não está pronto no palco do Teatro Coliseu. Com simpáticas intervenções do diretor russo Adolf Shapiro o grupo apresentou cenas da peça. O elenco ainda não está à vontade, mas as interpretações de Lúcia Romano, Donizeti Mazonas e Luah Guimarães já se fazem notar. Ao final, Luah Guimarães  fez uma explanação sobre o processo de criação do espetáculo. Aguardemos a estreia em São Paulo no final do mês de setembro.
     O Autor Intelectual da Colômbia – Da mesma companhia que apresentou Os Autores Materiais este ótimo espetáculo faz do espectador um voyeur através de uma janela onde ele observa as discussões de uma família em torno do destino que vão dar à Dona Bertha, mãe dos dois personagens masculinos. Na linha de Parente É Serpente e Deus da Carnificina a peça apresenta o que está por baixo das relações sociais bem comportadas quando surgem conflitos nas mesmas. Impactante e tratando de assuntos que afetam qualquer um o espetáculo foi ovacionado ao final.
O Autor Intelectual - Foto de Juan Pablo Urrego

     Os Assassinos do México – A peça tem uma narrativa caótica e histérica. Num cenário desolador com uma árvore “beckettiana”, seres marginalizados se degladiam e se destroem: drogas, sonho com imigrar para os Estados Unidos (temática muito presente na dramaturgia mexicana) e muita violência são os principais temas tratados. Há a inclusão de números musicais que nada acrescentam à narrativa. Longo e cansativo.
     + 75 da Espanha. Simpático espetáculo de rua mostrando as dificuldades de cinco velhos (uma das mulheres é paraplégica e anda numa cadeira de rodas) de interagir com a cidade grande. Com o uso de pernas de pau os atores criam o efeito da fragilidade no andar dos velhos. Sem seguir uma narrativa pré-elaborada o espetáculo vai acontecendo ao sabor das interações com o público. Nesta apresentação um espectador, uma cadela e até o vice-prefeito da cidade de Santos tiveram participações especiais.
+75 - Foto de Ivan Ensenyat

     Hamlet dos Andes da Bolívia – Mais uma desconstrução bem sucedida do clássico de Shakespeare. Apenas três atores dão conta de todas da personagem da peça. A encenação mistura a trama shakespeariana com a realidade da Bolívia e do grupo (a morte do pai relaciona-se com a saída de Cesar Brie que dirigiu o grupo por mais de 20 anos). Há trechos falados em quechua. Intenso e corajoso. A atriz Alice Guimarães é brasileira e faz parte do grupo desde a sua fundação há 21 anos.
     Cinzas do Paraguai – Espetáculo ritual com clara inspiração em Grotowski e nos espetáculos do grupo catalão Fura Del Baus. Visualmente excitante o espetáculo mostra as desgraças de uma guerra segundo a vivência de uma mulher (vivida pelas três atrizes). Excelente música ao vivo e muitas cenas coreografadas (coreografia violenta com movimentos bruscos). Destaque para uma das atrizes que tem uma cena fortíssima narrando a morte do pai. Um ato de coragem num momento em que o Paraguai vive uma delicada situação política.
Cinzas - Foto de Alexandra dos Santos

     O Nacional da Espanha – Há exatos 36 anos no Festival de Teatro produzido por Ruth Escobar em São Paulo, assisti a um dos espetáculos mais significativos de minha vida (Alias Serralonga) com este grupo catalão (Els Jograls) dirigido pelo mesmo diretor (Albert Boadella); foi então com muita curiosidade e expectativa que me dirigi ao Teatro Coliseu para assistir a esta produção original de 1993 e agora remontada para comemorar os 50 anos do grupo. Com muita alegria constato que o grupo mantém a virulência, o espírito crítico e certa anarquia presentes no espetáculo de 1976. Desta vez trata-se de criticar os descasos das políticas culturais da Espanha (alguma semelhança?), por meio da abnegação e do desvario do antigo diretor Don Jose que tenta manter um teatro de óperas em ruínas ensaiando a ópera Rigoletto com um grupo de marginalizados. Lá fora o progresso tenta invadir o teatro com suas máquinas para destruí-lo e construir provavelmente um shopping center. O espetáculo é levado num tom irônico e causa surpresa as excelentes qualidades vocal e instrumental dos atores. As situações dos ensaios da ópera, das trapalhadas dos integrantes e das invasões repetem-se várias vezes e o espetáculo tem vários falsos finais o que o torna longo e cansativo. Isso não desmerece a qualidade e a originalidade do mesmo.
O Nacional - Foto de Neil Becerra

     Deixei de assistir aos dois espetáculos do Chile que serão apresentados em São Paulo na próxima semana e àqueles do Peru e da Colômbia (última parte da trilogia) por falta de espaço na agenda. Considero muito positivo o saldo da Mirada que mostrou uma boa amostra do teatro ibero-americano atual. Ratifico aqui quais os espetáculos que mais me impressionaram: Incêndios do grupo Tapioca Inn do México; Ato Cultural do grupo Actoral 80 da Venezuela ; O Autor Intelectual e Os Autores Materiais do grupo La Maldita Vanidad da Colômbia; Podem Deixar o Que Quiserem do grupo Intimo Teatro Itinerante da Argentina; Hamlet dos Andes do grupo Teatro de los Andes da Bolívia e o instigante e surpreendente Cinzas do grupo Hara Teatro do Paraguai. Foram apresentados vários espetáculos nacionais de alto nível, sendo que não assisti à maioria por já tê-los assistido ou porque há uma maior possibilidade que eles sejam apresentados em São Paulo.
     Valeu Sesc! Valeu Santos! Valeu Mirada!

terça-feira, 11 de setembro de 2012

MIRADA 3 – UM PEQUENO BALANÇO

     Desde quarta feira passada assisti a 11 espetáculos no festival Mirada percorrendo um pouco do que se faz no teatro ibero americano: Cuba, México, Costa Rica, Argentina, Uruguai, Colômbia foram alguns dos países dos quais assisti encenações. Até agora a unanimidade é o espetáculo Incêndios do México com a grande atriz Karina Gidi (guardem esse nome) e eu, particularmente, gostei muito de Ato Cultural da Venezuela.
Karina Gidi em cena de Incêndios. Foto de Fernanda Procópio
     Dos outros espetáculos a que assisti vale destacar :
     Podem deixar o que quiserem da Argentina, com uma interessante concepção cênica formada de um quadrado com cortinas feitas de roupas usadas e que, em certos aspectos, lembra aquela de O Jardim do Grupo Hiato.
     O Cantil do grupo cearense Teatro Máquina com uma instigante releitura sem palavras de A Exceção e a Regra de Brecht onde se mostra a relação explorador/explorado; manipulador/manipulado. Espetáculo enxuto com 40 minutos de duração que tem alguns problemas de narrativa; o visual é belíssimo.
     Os Autores Materiais da Colômbia. Encenação ultrarrealista que mostra a situação de três jovens que acabaram de assassinar o seu locatário por questões financeiras. Tem uma atuação brilhante de Ella Becerra como a inquieta faxineira.
     Herodíades de Portugal. Monólogo árido do italiano Giovanni Testori. Vale pela interpretação requintada de Elmano Sancho.
     Eclipse do Grupo Galpão de Minas Gerais. Novas linguagens, novas perspectivas...
     Situo os outros espetáculos assistidos num patamar médio. Não foram ruins, mas por uma razão ou outra, não alçaram voo. São eles: Ar Frio (Cuba); Uma Vez Mais , Por Favor (México); Mãe Coragem e Seus Filhos (Costa Rica) e Chaika (Uruguai).
     O saldo até o momento é bastante positivo provando a maior função de um festival que é a de confrontar linguagens, mostrar trabalhos inéditos e discutir o fazer teatral.
     E ainda temos cinco dias pela frente...